Dia Internacional em memória das vítimas do Holocausto: ‘A Bibliotecária de Auschwitz’ Livro de António Iturbe

O romance conta a história de uma menina de 14 anos, Dita Kraus, que, no campo de concentração nazi de Auschwitz, velou por oito livros como “o maior dos tesouros”, disse o escritor à Lusa.

Hoje, 27 de janeiro, Dia Internacional da Memória do Holocausto, celebra-se o 68.º aniversário da libertação, pelas tropas aliadas, deste campo de extermínio, na Polónia, um dia “particularmente saudado” por Dita Kraus, atualmente com 84 anos, e que “arriscou a vida para manter viva a magia dos livros, tendo conseguido esconder dos nazis durante anos aquela pequena biblioteca”.

“Gente como Dita, no sítio mais horroso do mundo, manteve sempre alta a esperança e o ânimo, não se deixando abater, apesar de os nazis, como criminosos inteligentes, antes de liquidarem os corpos, matavam as almas, tentavam torná-los gado humano”.

“A bibliotecária de Auschwitz”, por outro lado, segundo o seu autor, salienta-nos “a importância de investir nas escolas e esta gente fez um esforço para ter uma escola e uma biblioteca [no campo], que permitiu que aquelas crianças acreditassem num mundo melhor”.

“A história, sendo triste, ajuda-nos a relativizar problemas que enfrentamos no dia-a-dia, e a enfrentar a crise que atravessamos e a falta de ânimo que se abateu sobre a Europa, nomeadamente em Espanha e Portugal”, destacou o autor, em declarações à Lusa.

Dita sobreviveu, casou com o escritor Otto Kraus, em 1947, dois anos depois de ter sido libertada do campo de concentração de Bergen-Belsem, para onde fora transferida em 1944, “vive atualmente em Israel, onde passou a residir desde 1950, e tem uma memória fresca”, contou o escritor.

Antonio Iturbe fazia uma investigação sobre o campo de extermínio Auschwitz-Birkenau, quando descobriu que existia o campo familiar, onde eram mantidos alguns agregados, “BIIb”, de Auschwitz II-Birkenau, no qual havia um barracão com 500 crianças, dirigido pelo instrutor judeu Fredy Hirsh, que era “um homem atlético, perfeito, muito limpo, cuidado, dentro da pobreza, sempre elegante”, e do qual se perdeu o rasto.

“Provavelmente não sobreviveu, foi um das dezenas de milhar mortas naquele campo de chacina e de horrores. Compilei vários dados sobre ele. Dita explicou algumas coisas e reconstrui a personagem de forma literária, tendo-me servido para encarar certos valores. Mas foi real e há fotos dele”, disse.

“Fredy Hirsh era alemão e os nazis, de certa forma, ‘respeitavam-no’, foi uma personagem peculiar, um visionário e, lamentavelmente, não sobreviveu ao holocausto. Poderia ter sido alguém importante no moderno Israel”.

Antonio G. Iturbe encontrou Dita quando procurava na Internet o livro “The painted wall”, de Otto Kraus, cuja narrativa se ambienta naquele barracão familiar de Auschwitz, e o encontrou à venda “numa página doméstica”, que era gerida pela própria Dita Kraus.

“Dita Dorachova, de seu nome de solteira, e a sua história, como todas as coisas mais importantes da vida, surgiu-me por acaso, quando me contaram que em Auschwitz-Birkenau havia um ‘Bloco 31’, e, neste lugar, escondia todas as noites os frágeis oito volumes. Mas nem pensei que a ‘bibliotecária’ Dita ainda fosse viva”, contou à Lusa Antonio Iturbe.

Jornalista, Iturbe começou por perspetivar uma reportagem sobre Auschwitz, depois achou que “podia dar mais” e lançou-se num ensaio.

“Com cerca de cem páginas escritas, tinha muitos números, dados, fontes de informação, mas não conseguira verter no ensaio aquele sentimento que me tocava, e foi aí que decidi escrever um romance”, contou.

A personagem Dita, protagonista do romance, “é um misto de Pipi das Meias Altas e, ao mesmo tempo, dotada de uma grande determinação de como escapar aos nazis”. “Ela dá-nos a perspetiva de que há sempre uma esperança, uma pequena escapatória, uma luz ao fim do túnel”.

Antonio Iturbe reconhece que a personagem é fruto da forma como olha para Dita, “uma mulher de uma grande integridade, muito enérgica – guia o seu carro, joga às cartas com as amigas, com uma curiosidade voraz e atualmente pugna pela edição no seu país natal, a República Checa, das obras do marido”. “Ela continua a lutar pelos livros”, destaca o escritor.

Iturbe, de 46 anos, é jornalista há 20, tendo sido coordenador do suplemento televisivo de El Periódico, redator da revista de cinema Fantastic Magazine. Trabalha há 17 anos na revista Qué Leer, de que é actualmente director. Publicou já dois romances e é autor de uma série de livros infantis, também editada em Portugal, com títulos como “O visitante noturno” e “Um dia nas corridas”, protagonizada pelo Inspetor Zito.dita

http://www.noticiasaominuto.com/cultura/

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